Eleições 2008
O Presidente e a Imprensa
por Martha Joynt Kumar
Cada presidente dos E.U.A. precisa duma equipa na Casa Branca que esteja a par das relações entre o presidente e a imprensa bem como de um pessoal que saiba como tirar proveito das mesmas. A necessidade de boas relações com a imprensa é particularmente aguda em períodos de transição.
Martha Joynt Kumar é professora de ciências política na Towson University em Towson, Maryland, e autora e co-autora de vários livros sobre os média e a presidência, incluindo o clássico de 1981 “Portraying the President: The White House and the Media” e “Managing the President's Message: The White House Communications Operation”.
“Estou satisfeito por termos entregue a gravação da declaração à rádio, TV e jornais de actualidades. Os jornalistas tendenciosos que vão para o inferno; vamos directamente às pessoas que podem ouvir exactamente o que disse o Presidente [Eisenhower] sem terem que ler histórias deformadas e tendenciosas”, disse James Hargerty, secretário de imprensa do Presidente Dwight D. Eisenhower acerca da distribuição duma gravação duma conferência de imprensa presidencial.
O desejo de utilizar organizações noticiosas para estabelecer uma ligação directa e livre com o público tem sido um tema constante em comunicações presidenciais tal como têm sido as reclamações contra a imprensa. O Presidente George W. Bush estava no poder havia apenas dois meses quando começou a reclamar acerca do “intermediário”. Num discurso a 23 de Março de 2001, em Portland, Oregon, Bush observou: “Considerei mais eficaz para mim sair da capital do país e explicar o meu orçamento frente a frente às pessoas do que contar com um intermediário para o fazer. Às vezes os factos são distorcidos… Por isso, permitam-me que explique o meu orçamento, se não se importam, e o que tencionamos fazer com o dinheiro para conseguirmos equilíbrio fiscal na capital”. Como os seus antecessores, Bush exprimiu a sua frustração com a imprensa por não falar dele e dos seus programas tal como gostaria de os ver retratados.
Embora os presidentes se queixem da imprensa, descobrem rapidamente que as organizações noticiosas são uma parte importante do cenário governamental presidencial. James Hagerty enfurecia-se com os jornalistas, mas mesmo assim falava com eles, informava-os no seu escritório duas vezes por dia, autorizava-os a entrar ao longo do dia, certificava-se de que eram incluídos em eventos e viagens presidenciais com lugares especiais para verem e ouvirem o presidente e satisfazendo, em geral, as suas necessidades em termos de cobertura e informação. Hagerty sabia algo que outro pessoal da Casa Branca e os seus presidentes aprenderam sobre as comunicações da Casa Branca. É uma relação tensa, mas também é uma relação que beneficia os presidentes. O público quer saber o que um presidente está a fazer e a planear. As organizações noticiosas fornecem-lhe essa informação.
Três elementos da relação entre a Casa Branca e a imprensa dizem-nos muito sobre como funciona numa e noutra administração. Primeiro, a relação é uma relação de cooperação. Pode haver tensão entre ambas, mas diariamente cada uma tem interesse em trabalhar bem com a outra. Segundo, as operações de comunicação da Casa Branca continuam, com os escritórios centrais de publicidade a permaneceram duma administração para a seguinte, com regras do jogo que se aplicam a todas as administrações. As regras que regem as relações parecem simples e imutáveis – dizer a verdade, dar as más notícias explicando-as – mas também o são as tentações dos que se encontram na Casa Branca de não as cumprirem. Esse é um dos factores que torna o cargo de secretário de imprensa do presidente tão difícil. Terceiro, as organizações noticiosas são o veículo principal que os presidentes e os seus representantes usam para fazer chegar ao público um número considerável de discursos, entrevistas com a imprensa e declarações. Contudo, não controlam a relação porque têm que responder a questões colocadas pelos jornalistas.
O Elemento Cooperação
A fim de aproveitarem mais eficazmente a sua relação com as organizações noticiosas, os presidentes e o seu pessoal têm que cooperar com os jornalistas que os cobrem. De que outra forma um presidente faz chegar os “factos” ao público com regularidade se não for através da imprensa?
Diariamente, há cerca de 100 repórteres, fotógrafos, produtores e operadores de câmaras da imprensa escrita, electrónica, televisão e rádio, estacionados na Casa Branca, prontos a enviarem imagens do presidente para o público e a escrever sobre ele e a sua administração. Por mais descontentes que estejam com os repórteres, os presidentes e o seu pessoal continuam a ter repórteres na Ala Ocidental da Casa Branca, como acontece desde 1902, quando este anexo foi ocupado pela primeira vez. A cooperação abrange o fornecimento de informação aos jornalistas sobre o presidente e os seus programas pela Casa Branca e a utilização pelas organizações noticiosas daquilo que recebem sob uma forma ou outra. A tensão no seu relacionamento surge quando a Casa Branca discorda das informações transmitidas pelas organizações noticiosas e daquilo que os jornalistas incluem nos seus artigos.
Apesar de ser muito dispendioso para as organizações noticiosas manter uma presença na Casa Branca, têm feito isso desde pelo menos 1896, quando vários jornais colocaram correspondentes numa mesa do lado de fora do escritório do secretário do presidente, equivalente ao actual chefe de gabinete da Casa Branca. Então e agora, as organizações noticiosas queriam os seus jornalistas perto do centro de notícias para que a sua organização pudesse ser a primeira a divulgá-las.
Os jornalistas nunca desistiram do seu acesso privilegiado a notícias presidenciais. Hoje, as principais cadeias de televisão têm um espaço preparado na entrada da Ala Ocidental no lado norte da Casa Branca onde dão informações em directo. As televisões visitantes também o utilizam. A Casa Branca e as organizações noticiosas procuram manter o espaço porque todas sabem que o espaço serve às organizações noticiosas tal como acontece coma renovada Sala de Imprensa da Casa Branca. As organizações noticiosas e o governo gastaram conjuntamente $8 milhões para a renovação, dos quais $2 milhões foram pagos pela imprensa.
Uma História de Continuidade
O Presidente Clinton sai duma conferência de imprensa na Sala Este da Casa Branca em Janeiro de 1997.
O cargo de secretário de imprensa do presidente é o que tem uma história mais longa. Cada um dos 13 presidentes que cumpriram um mandato a partir de 1929 teve um assistente para os assuntos de imprensa. As pessoas que ocupam esse cargo gerem a relação do presidente com a imprensa e fornecem informação aos jornalistas segundo os desejos do presidente e do seu pessoal.
Em 1969, o Presidente Richard Nixon acrescentou um segundo elemento às comunicações da Casa Branca: o Escritório de Comunicações. Este escritório também sobreviveu até ao presente. Tradicionalmente trata do planeamento de comunicações de longo alcance e elabora planos para vender programas presidenciais ao público e a outros, cujo apoio é necessário ao presidente, enquanto o secretário de imprensa e o seu pessoal se concentram mais em fornecer informação diariamente aos jornalistas que cobrem regularmente o presidente. A longevidade destes escritórios em administrações Democratas e Republicanas reflecte as necessidades permanentes a que atendem.
As regras do jogo que regem as relações entre jornalistas e funcionários são também permanentes. Mesmo as disposições sobre o que é oficial, o que é confidencial e “sob anonimato” continuam a ser praticamente as mesmas. A informação oficial é pública e os jornalistas podem utilizá-la com o nome da fonte. Actualmente a maior parte da informação presidencial é oficial. A informação sob anonimato significa que uma fonte, como um funcionário da Casa Branca, diz a um jornalista algo que pode divulgar, mas sem citar o nome da pessoa. Assim, um jornalista pode escrever “Um alto funcionário da Casa Branca disse hoje…” Confidencial significa que os jornalistas não podem de modo algum usar publicamente a informação, embora dum ponto de vista prático possam ver se encontram a mesma informação através de alguém que lhes forneça oficialmente ou sob anonimato.
Também são imutáveis os princípios que regem a publicidade que beneficia um presidente e a sua administração. O secretário de imprensa [do Presidente Gerald Ford], Ron Nessen, estabeleceu esses princípios que atravessam gerações e se aplicam a todos os funcionários das comunicações. “Penso que a maior parte dos secretários de imprensa, independentemente dos seus antecedentes, compreendem que as mesmas regras se aplicam ano após ano, administração após administração: dizer a verdade, não mentir, não esconder, ser o próprio a dar as más notícias, dá-las logo que possível, dar a sua própria explicação, tudo isto”.
Ao mesmo tempo, nem sempre é fácil para os funcionários da imprensa seguirem essas directivas. Como Nessen também observou “… muitas vezes, outros membros do pessoal não querem fazer isso; não compreendem isso”. Na Casa Branca de George W. Bush vimos como era difícil para o Secretário de Imprensa Scott McClellan conseguir informação exacta dos altos funcionários da Casa Branca e a sua subsequente perda de credibilidade. Houve o mesmo cenário em administrações anteriores com igual resultado: surge uma nova pessoa como secretário de imprensa.
Organizações Noticiosas: Veículos Não Controlados
Um presidente tem muito em jogo na sua relação com as organizações noticiosas porque precisa da compreensão do público para poder governar. Para criar programas e financiá-los o presidente precisa do acordo do Congresso. A sua posição é mais de partilha do poder do que de exercício do poder. E é aqui que entram as organizações noticiosas: são o seu veículo para o público cujo apoio necessita para convencer o Congresso a promulgar os seus programas.
O presidente americano fala da Casa Branca e de todo o país e do mundo. As organizações noticiosas acompanham-no aonde quer que vá, enviando cópias por telegrama, escrevendo artigos de jornais e transmitindo na rádio e na televisão aquilo que diz. Pode-se avaliar a necessidade que um presidente tem das organizações noticiosas pela frequência dos seus discursos e comentários públicos. O Presidente George W. Bush fez uma média de 1.6 discursos ou comentários por dia numa semana de seis dias, enquanto que o Presidente Bill Clinton fez 1.8. Em discursos, grandes ou pequenos, um presidente hoje pode prever que vai falar 500 vezes por ano, sobretudo no primeiro ano do seu mandato. Clinton falou 601 vezes em 1993, o primeiro ano do seu mandato, e Bush fez 508 discursos e comentários em 2001.
O preço por recorrer às organizações noticiosas como um veículo para transmitir as palavras dum presidente ao público é fornecer informação às organizações e aos seus jornalistas, em particular aos que estão destacados para a Casa Branca. Procuram informação para além da que é fornecida pelo presidente e pelo seu pessoal; as suas palavras constituem apenas uma parte dos seus artigos. Querem respostas às suas perguntas sobre os motivos do presidente, planos alternativos e prioridades.
Quotidianamente, os jornalistas obtêm informações dos subalternos do presidente, a maior parte das vezes do seu secretário de imprensa. Contudo, regularmente, os jornalistas precisam de respostas do próprio presidente. Embora os presidentes americanos tenham respondido a perguntas dos jornalistas no fórum aberto da conferência de imprensa desde 1913, essas sessões no início eram confidenciais. Passaram a ser oficiais e a estar disponíveis para a televisão desde Janeiro de 1955, altura em que o Presidente Eisenhower realizou a primeira sessão desse género.
Hoje, os presidentes encontram-se com os repórteres em três locais. Primeiro, há as conferências de imprensa nas quais o presidente se encontra com os repórteres numa sessão aberta para responder às suas perguntas durante cerca de meia hora. Às vezes um líder estrangeiro acompanha o presidente e outras vezes está sozinho perante a imprensa. Além disso, os chefes de estado respondem aos jornalistas regularmente em pequenas sessões de perguntas e respostas na Sala Oval e noutros lugares da Casa Branca, incluindo o Jardim das Rosas no exterior da Sala Oval. Os presidentes também são entrevistados por jornalistas de países estrangeiros e pelos que representam organizações noticiosas nacionais. Antes de se deslocar ao estrangeiro, por exemplo, é geralmente entrevistado por jornalistas que representam organizações noticiosas do país que vai visitar. Essas sessões têm como objectivo informar o público aí sobre as suas expectativas quanto à viagem.
Se somarmos conferências de imprensa, sessões de perguntas e respostas e entrevistas, constatamos que os presidentes se encontram frequentemente em sessões que só controlam parcialmente. Os presidentes não são obrigados a responder às perguntas, mas podem ser criticados se não o fizerem. O Presidente Clinton respondeu a perguntas dos repórteres 332 vezes no primeiro ano do seu mandato, enquanto que o Presidente Bush respondeu a 211 no primeiro ano. Depois do primeiro ano, Bush não respondeu às perguntas dos jornalistas mais de 150 vezes em qualquer dos sete anos restantes e Clinton teve 275 sessões dessas ou menos em cada um dos restantes sete anos do seu mandato. Em todas estas sessões os presidentes correm o risco de cometer erros, algo que não gostam de fazer e que evitam se puderem.
Uma Nova Administração
Quando Barack Obama iniciar o seu mandato, irá precisar duma equipa na Casa Branca conhecedora dos ritmos da relação entre o presidente e a imprensa e um pessoal que saiba como tirar vantagem dos mesmos. Considerando todas as apresentações públicas que um presidente faz actualmente e as muitas vezes em que responde a perguntas dos repórteres, o presidente precisa duma equipa que possa ajudá-lo a chegar ao público com os seus objectivos e programas. Uma liderança eficaz assim o exige.
As opiniões expressas neste artigo não reflectem necessariamente as opiniões nem as políticas do governo dos Estados Unidos.